Leão XIV: gestos proféticos e a busca pela paz em um mundo em guerra
- 08/05/2026
Com 120 conflitos ativos no mundo, Papa Leão XIV insiste no desarmamento da linguagem para humanizar a geopolítica mundial
Thiago Coutinho
Da redação

Papa Leão XIV solta pomba em gesto simbólico de paz e reconciliação / Foto: Guglielmo Mangiapane – Reuters
Não por acaso, assim que deu início a seu pontificado, o Papa Leão XIV escolheu as palavras “a paz esteja convosco” como seu primeiro cumprimento ao mundo. Atualmente, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e o Uppsala Conflict Data Program (UCDP), existem 120 conflitos armados em curso no mundo. Para além dos conflitos que, com frequência, aparecem no noticiário, esses números compreendem também guerras civis e insurgências. Europa, África, Ásia e Oriente Médio são os principais continentes protagonistas de embates entre nações.
Pode-se dizer que, com esta saudação, Leão XIV estabeleceu o tom do seu pontificado, que tem sido pautado pelos apelos em prol da paz mundial. “Penso que, como agostiniano, o Papa tenha escolhido ‘A paz esteja convosco’ não como um protocolo, mas numa perspectiva interior, como algo que brota de dentro para fora; uma ‘palavra’ que transforma quem a acolhe”, explica o padre Paulo Henrique Teles de Almeida, presbítero da Diocese de Anápolis (GO), mestrando em Comunicação Institucional pela Pontifícia Universidade Santa Croce, em Roma.
O Pontífice, para o sacerdote, centraliza desta maneira seu discurso em torno da paz mundial, sem rodeios e embasado na Palavra de Deus. “O Papa centraliza a Pessoa de Cristo nessa perspectiva em um mundo que precisa cada dia mais de paz, um dom que vem de Deus e se opõe à lógica de domínio. Isso dá o tom: a paz não é mero ‘silêncio das armas’, mas uma prática espiritual que desarma o coração antes de desarmar as mãos”.
“Ele faz mais do que uma saudação religiosa: ele define o ponto de partida para sua atuação”, acrescenta Frei Jorge Luiz Soares, assessor de relações Institucionais e Governamentais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “Em vez de começar com um discurso institucional, cheio de referências a cargos, normas ou prioridades políticas, ele usa uma expressão simples, conhecida e profundamente enraizada na tradição cristã, atribuída ao próprio Cristo. Isso muda o tom da comunicação, porque coloca as pessoas e a relação entre elas no centro”, acrescenta.
Essa postura do Pontífice, para o frei e assessor da CNBB, coloca a Igreja no centro do debate e, o mais importante: sem se colocar ao lado ou contra posturas políticas específicas. A mensagem de Leão XIV é de que a Igreja quer promover o bem a todos. “Ao dizer ‘a paz esteja convosco’, o Papa evita esse caminho e não entra no jogo de “nós contra eles”, mas propõe uma base comum, que é anterior a qualquer espécie de conflito. Com isso, ele tenta reduzir a tensão desde o início, criando um espaço em que o diálogo pode acontecer sem que as partes já estejam armadas umas contra as outras.”
Simbologia
Em sua mais recente jornada apostólica, que se deu no continente africano, Leão XIV soltou sete pombas brancas num gesto profético, mas com uma mensagem firme às nações que insistem nos conflitos armados.
“O Papa é uma pessoa com muita clareza”, afirma padre Paulo Henrique. “É um matemático e canonista, tem precisão no que fala, no que pensa. Ele compreende que vivemos em uma sociedade em que a imagem tem uma força impactante e sabe que gestos simbólicos, ligados à paz, não substituem tratados, mas exercem uma necessária pressão moral e pedagógica, pois convocam as consciências e mobilizam o agir.”
Esses gestos podem humanizar conflitos e levar uma mensagem de misericórdia aos gestores desses países que insistem na guerra. “Há vários exemplos concretos em Roma [destes gestos]”, assegura padre Paulo Henrique. “Por exemplo, fui convidado para participar da Santa Missa na Basílica de Santa Maria Maior, presidida pelo Cardeal Parolin com a presença do primeiro-ministro do Haiti, implorando o dom da paz para aquela nação. São gestos fortes que colaboram para a paz ao humanizar conflitos que a política técnica muitas vezes ignora.”
“Trata-se de um gesto que simplifica uma mensagem complexa, que é a mensagem da paz”, reforça o frei Jorge Luiz. “Além disso, há o importante elemento de autoridade moral. Diferente de um Estado, que age a partir de interesses nacionais, o Papa fala sem nenhum alinhamento de interesse econômico ou militar. Isso dá aos seus gestos uma certa credibilidade simbólica. Eles não são vistos como instrumentos de pressão, mas como apelos. E apelos, quando encontram ressonância na população, podem influenciar o ambiente político de maneira indireta, pressionando lideranças a mudar de postura”.
Levar a paz nas redes
O Papa também recorda que, muitas vezes, a violência começa nas palavras e nos nomes que damos aos outros. E, no contexto das redes sociais, pode ser complexo educar sobre desarmamento, paz e convivência pacífica sem parecer ingênuo.
“Penso que a escolha de ‘rage bait’ (isca de raiva) como palavra do ano de 2025 pelo Dicionário Oxford reflete o clima bélico da cultura digital atual, em que o conteúdo é criado deliberadamente para gerar indignação”, explica o presbítero da Diocese de Anápolis. “O Papa tem consciência disso e afirma explicitamente que a linguagem pode se tornar uma arma. Em seu encontro com o Corpo Diplomático aqui em Roma, observou que a ambiguidade muitas vezes transforma a linguagem em instrumento para enganar ou ofender adversários”.
A educação para a paz, neste sentido, não é simplória. “A educação para a paz desarmada não é ingenuidade: ela começa no interior, com a eliminação do orgulho e a escolha cuidadosa das palavras”, pondera o padre.
Nas redes sociais, para frei Jorge Luiz, é possível encontrar um clima de desumanização muito forte, em que o outro é classificado como “inimigo” ou “perigoso”. “Esse tipo de linguagem não é neutro; ele prepara o terreno para justificar agressões posteriores, ainda que simbólicas. Por isso, educar para uma ‘paz desarmada’ começa, de fato, por educar o modo de se relacionar com o outro”, detalha o frade.
Por isso, um processo de educação digital se faz necessário. E a Igreja pode ser um grande aliado neste sentido. “Nesse contexto, a Igreja pode agir em três níveis que se reforçam mutuamente”, explica o frei. “Primeiro, na formação da consciência crítica para o ambiente digital. Isso significa ensinar que nem toda informação que circula é confiável, que algoritmos tendem a reforçar polarizações e que reagir impulsivamente faz parte de um mecanismo que lucra com o conflito; segundo, na recuperação de uma ética da linguagem. Isso não é censura, mas responsabilidade. Falar a verdade sem destruir o outro, criticar sem desumanizar, discordar sem transformar o outro em inimigo; e, terceiro, no testemunho público. Quando lideranças eclesiais, em continuidade com o estilo do Papa Francisco, se recusam a adotar linguagem agressiva mesmo sob pressão, elas mostram que é possível ocupar o espaço público sem reproduzir a lógica da hostilidade. Isso tem impacto porque oferece um modelo alternativo num ambiente saturado pelo confronto”.
Avanços concretos
Em apenas um ano de papado, Leão XIV já deixou claras marcas em prol da paz mundial. Por outro lado, ainda é difícil apontar quais foram os resultados práticos de sua atuação — o que não torna seus esforços menos gratificantes.
“É um desafio mensurar resultados verificáveis como avanços específicos no sentido de cessar-fogo imediato, mas a Igreja se consolida como uma voz mediadora indispensável para ambos os lados em vários conflitos, buscando sempre uma solução justa”, afirma padre Paulo Henrique. “A diplomacia vaticana segue operando como um dos canais de diálogo mais fidedignos do mundo. O Papa, como observado em episódios de tensões internacionais recentes, demonstra clareza, segurança e respeito, mantendo as portas abertas em que a diplomacia convencional muitas vezes falha por interesses puramente políticos ou econômicos.”
Frei Jorge Luiz ressalta que a diplomacia da Santa Sé não funciona como a diplomacia dos Estados. “Ela raramente produz acordos visíveis de curto prazo; seu impacto costuma ser indireto, gradual e, muitas vezes, discreto. Ainda assim, há alguns avanços concretos, não no sentido de resolver conflitos, mas de manter canais abertos quando outros se fecham”.
Em um caso específico, como Israel e Irã, não houve uma mediação formal que, por fim, resultasse num acordo entre as duas nações. A Santa Sé, no entanto, mantém um papel fundamental para que a diplomacia seja mantida. “O avanço mais concreto é a manutenção de interlocução com diferentes atores, inclusive em momentos de escalada. A Santa Sé tem a capacidade de falar, ainda que separadamente, com lados que não dialogam entre si. Isso pode parecer pouco, mas em diplomacia é decisivo”.
A Páscoa de Francisco
Leão XIV assumiu o governo da Igreja Católica após a Páscoa de seu predecessor, Papa Francisco. E Francisco já enfrentava um desafio difícil ao pregar sobre a paz em meio ao que classificou como “Terceira Guerra Mundial em pedaços”. A “paz desarmante” acabou se tornando a marca, até agora, do pontificado de Robert Francis Prevost, o Papa Leão XIV.
“Vivemos um período de transição em que uma nova geopolítica se configura, inclusive com um novo papel para a Europa”, contextualiza o padre. “A Igreja tenta, por meio do Santo Padre, ser um canal de paz que convoca as lideranças mundiais à responsabilidade, denunciando abusos quando limites éticos, jurídicos, são ultrapassados. O mundo testemunha a força do Papa e o impacto de suas palavras como um freio moral e um convite ao diálogo nos conflitos mais agudos do Oriente Médio e da África”.
“Ao assumir o pontificado após a morte do Papa Francisco, o Papa Leão XIV herdou não apenas uma agenda, mas também um diagnóstico contundente, o de uma ‘Terceira Guerra Mundial em pedaços’, que descreve um mundo atravessado por conflitos fragmentados, persistentes e interligados”, complementa o frei e assessor da CNBB.
Assim, se o Papa Leão XIV resolveu apostar no que descreve como “paz desarmante” como eixo de seu magistério, ele não nega a gravidade de um mundo em guerra fragmentada. “Mas sugere que, sem uma transformação no modo de se relacionar, seja no nível pessoal, social ou político, qualquer tentativa de solução continuará sendo parcial e instável”, finaliza o frei.
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