Padre nos 135 anos da Rerum Novarum: ser humano vale mais que a IA

  • 15/05/2026

Encíclica social de Papa Leão XIII ganha nova atualidade diante da inteligência artificial, da automação e da lógica da produtividade constante, reflete padre Jerffeson Adelino

Julia Beck
Da Redação 

Perfil de um homem usando óculos, com elementos gráficos digitais e painéis tecnológicos sobrepostos ao rosto, simbolizando inteligência artificial, análise de dados e interação entre ser humano e tecnologia.

Ser humano e inteligência artificial em interação com dados e tecnologia digital /Foto: Canva

A histórica Encíclica Rerum Novarum, publicada pelo Papa Leão XIII em 15 de maio de 1891, completa 135 anos neste ano. O documento, apesar de centenário, permanece surpreendentemente atual diante das transformações do mundo do trabalho. Escrita em meio aos impactos da Revolução Industrial, a encíclica denunciava a exploração dos operários, defendia salários justos, condições dignas de trabalho e alertava para os riscos de um sistema econômico que colocasse o lucro acima da pessoa humana. Hoje, em um cenário marcado pela inteligência artificial, pela automação e pelas novas relações trabalhistas, a encíclica volta ao centro das reflexões sociais e eclesiais.

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O pároco da Paróquia São Paulo Apóstolo e coordenador do Serviço de Comunicação da Diocese de Caruaru (PE), padre Jerffeson Adelino Gomes, reflete que, naquele tempo, havia o risco de o trabalhador ser tratado apenas como força de produção. Hoje, segundo ele, o risco é que a pessoa humana seja reduzida a números, desempenho e produtividade. “A tecnologia é importante e pode trazer muitos benefícios, mas ela nunca pode valer mais do que o ser humano”, frisa.

Inteligência artificial

Papa Leão XIII

Papa Leão XIII / Foto: Domínio Público

Ao escolher o nome Papa Leão XIV, o atual Pontífice retomou explicitamente o legado de Leão XIII e relacionou os desafios contemporâneos àquilo que chamou de “outra revolução industrial”, impulsionada pelos avanços da inteligência artificial.

Em discurso ao Colégio Cardinalício, poucos dias após sua eleição, o Santo Padre afirmou que hoje a Igreja oferece ao mundo o patrimônio da Doutrina Social para responder aos novos desafios do trabalho. Em mensagens recentes, o Pontífice destacou que a humanidade vive uma “transformação histórica” e defendeu que o desenvolvimento tecnológico esteja subordinado ao bem comum e à dignidade humana.

Em outra ocasião, o Papa ressaltou que a inteligência artificial não pode substituir o discernimento moral nem as relações autenticamente humanas: “Embora a IA possa simular aspectos do raciocínio humano […], não pode replicar o discernimento moral ou a capacidade de formar relações genuínas”.

Leão XIII lembrava que o trabalho não é apenas uma questão econômica, observa padre Jerffeson. “O trabalho tem valor humano, social e até espiritual. Por isso, mesmo com tantos avanços tecnológicos, o ser humano nunca pode ser tratado como descartável.” Segundo o presbítero, a inteligência artificial consegue realizar muitas tarefas, mas não substitui aquilo que há de mais humano: a consciência, a sensibilidade, a criatividade e a capacidade de amar e cuidar das pessoas.

“Os princípios da Rerum Novarum ajudam justamente a lembrar que a economia e a tecnologia devem estar a serviço da dignidade humana, e não o contrário”, afirma.

Doutrina Social

Padre Jerffeson

Padre Jerffeson Adelino /Foto: Arquivo Pessoa

Padre Jerffeson destaca que a Doutrina Social da Igreja oferece uma contribuição fundamental porque coloca a pessoa humana no centro do debate. “Muitas vezes, a discussão sobre inteligência artificial fica focada apenas em eficiência e lucro. A Igreja recorda que é preciso pensar também nas consequências humanas, sociais e éticas dessas mudanças”, observa.

A tecnologia, pondera o sacerdote, pode ser uma grande ferramenta para o bem, mas precisa caminhar junto com responsabilidade, justiça e respeito pela dignidade humana. Nesse sentido, ele sublinha que a Igreja ajuda a recordar que nem tudo o que é tecnicamente possível é moralmente correto.

“O progresso só é verdadeiro quando ajuda o ser humano a viver com mais dignidade, e não quando transforma pessoas em peças substituíveis”, alerta. Padre Jerffeson acrescenta que a espiritualidade cristã recorda algo fundamental: “nós não somos máquinas”. “O nosso valor não está apenas naquilo que produzimos. Hoje existe uma pressão muito grande por desempenho, produtividade e disponibilidade constante, e isso acaba adoecendo muitas pessoas”, lamenta.

O presbítero afirma que a fé ajuda justamente a reencontrar o equilíbrio. “Jesus também parava, rezava, descansava e cuidava das pessoas. A espiritualidade cristã nos ensina que o trabalho é importante, mas a vida não pode se resumir ao trabalho”, complementa. Segundo o sacerdote, o ser humano precisa de sentido, paz interior, convivência e oração. Quando a pessoa perde isso, até pode continuar produzindo, mas vai se esvaziando por dentro.

Mensagem atual da Rerum Novarum

Mais do que uma reflexão histórica, a Rerum Novarum permanece como um convite atual para pensar a economia, a tecnologia e o progresso a serviço da dignidade humana. Para padre Jerffeson, o trabalhador não pode ser tratado como uma peça descartável ou apenas como alguém que gera lucro.

“Isso é muito atual, sobretudo para os jovens, que entram no mercado já pressionados por resultados, desempenho e insegurança. A encíclica nos lembra que o trabalho deve ajudar o ser humano a crescer, e não destruir sua saúde, sua fé ou sua humanidade”, pontua.

O presbítero ressalta que a tecnologia muda, o mercado muda, mas uma verdade permanece: a pessoa humana deve estar sempre acima do lucro e da lógica do descarte.

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FONTE: https://noticias.cancaonova.com/igreja/padre-nos-135-anos-da-rerum-novarum-ser-humano-vale-mais-que-a-ia/


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